segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

“Conhecendo a Melhor Maneira de Viver Sozinho”

O Buda ensinou: “Eu vou ensiná-los o que eu quero dizer por ‘conhecer a melhor maneira de viver sozinho’.                                                                                 

Não persiga o passado

Não se perca no futuro

O passado não mais existe

O futuro ainda não veio.

Olhando em profundidade para a vida como é

Neste exato aqui e agora,

O praticante habita

Na estabilidade e liberdade.

Precisamos ser diligentes hoje.

Esperar até amanhã pode ser tarde demais.

A morte vem inesperadamente.

Como podemos barganhar com ela?

Um sábio chama uma pessoa que sabe

Como morar na plena atenção

Dia e noite

“Aquele que sabe

A melhor maneira de viver sozinho.”

(Do sutra sobre a Melhor Maneira de Viver Sozinho)

O gatha “Conhecendo a Melhor Maneira de Viver Sozinho” começa com a linha: “Não persiga o passado”. “Perseguir o passado” significa se lamentar pelo que já veio e se foi. Lamentamos a perda de coisas bonitas do passado que não mais encontramos no presente. O Buda comentou essa linha como se segue: “Quando a pessoa pensa em como seu corpo era no passado, como seus sentimentos eram no passado, como suas percepções eram no passado, como suas formações mentais eram no passado, como sua consciência era no passado, quando ele pensa assim dando surgimento a uma mente que é escravizada nestas coisas que pertencem ao passado, então a pessoa está perseguindo o passado.”

O Buda ensinou que não deveríamos perseguir o passado “porque o passado não existe mais”. Quando estamos perdidos em pensamentos sobre o passado, perdemos o presente. A vida existe somente no momento presente. Perder o presente é perder a vida. O que o Buda quis dizer é muito claro: nós devemos dizer adeus ao passado de forma que possamos retornar ao presente. Retornar ao presente é ficar em contato com a vida.

Que dinâmica na nossa consciência nos compele a regressar e viver com as imagens do passado? Estas forças são feitas das formações internas (sânscrito”samyojana), formações mentais que surgem em nós e nos limitam. As coisas que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos, imaginamos ou pensamos podem todas dar surgimento a formações internas – desejo, irritação, raiva, confusão, medo, ansiedade, suspeita e assim por diante. Formações internas estão presentes nas profundezas da consciência de cada um de nós.

Formações internas influenciam nossa consciência e nosso comportamento diário. Elas nos impelem a pensar, dizer e fazer coisas das quais nem estamos conscientes. Como elas nos compelem desta maneira, são chamadas de correntes, porque nos limitam a agir de determinados modos.

Os comentários usualmente mencionam nove tipos de formações internas: desejo, ódio, orgulho, ignorância, visões teimosas, apego, dúvida, ciúme e egoísmo. Entre estes, a formação interna fundamental é a ignorância, a falta de clareza de visão. A ignorância é a matéria-prima a partir da qual as outras formações internas são feitas. Embora haja nove formações internas, como o “desejo” é sempre listado primeiro, é comumente usado para representar todas as formações internas. No Kaccana – Bhaddekaratta, o monge Kaccana explica:

Meus amigos, o que significa habitar no passado? Uma pessoa pode pensar, “no passado meus olhos eram desse modo e a forma (com a qual meus olhos entraram em contato) era daquele jeito”. Pensando assim ele fica limitado pelo desejo. Ao ficar limitado pelo desejo há um sentimento de saudade. Este sentimento de saudade o mantém habitando no passado.

O comentário de Kaccana poderia nos fazer pensar que a única formação interna segurando a pessoa no passado é o desejo. Mas quando Kaccana se refere ao “desejo”, ele está o usando para representar todas as formações internas – ódio, dúvida, ciúme e assim por diante. Todas estas nos amarram e nos seguram no passado.

Às vezes apenas temos que ouvir o nome de alguém que nos enganou no passado e nossas formações internas desta época automaticamente nos levam de volta ao passado e revivemos o sofrimento. O passado é a casa de memórias tanto dolorosas como felizes. Ficar absorvido no passado é uma maneira de estar morto no momento presente. Não é fácil deixar ir o passado e retornar a viver no presente. Ao tentarmos fazer isto, temos que resistir à força das formações internas em nós. Temos que aprender a transformar nossas formações internas de forma que sejamos livres para estarmos atentos ao momento presente.

O presente contém o passado. Quando entendermos como nossas formações internas causam conflitos em nós, poderemos ver como o passado está no momento presente, e não mais seremos subjugados pelo passado. Quando o Buda disse “Não persiga o passado” ele estava nos dizendo para não sermos subjugados pelo passado. Ele não quis dizer que deveríamos parar de olhar para o passado de forma a observá-lo em profundidade.

Quando revemos o passado e o observamos profundamente, se estivermos firmemente ancorados no presente, não seremos subjugados por ele. Os materiais do passado que constroem o presente se tornam claros quando se expressam no presente. Podemos aprender com eles. Se observarmos estes materiais em profundidade, podemos chegar a um novo entendimento sobre eles. Isto é chamado de “olhar novamente para algo antigo de forma a aprender algo novo”.

Se soubermos que o passado também está localizado no presente, entenderemos que somos capazes de mudar o passado ao transformar o presente. Os fantasmas do passado que nos seguem no presente, também pertencem ao momento presente. Observá-los em profundidade, reconhecer sua natureza e transformá-los, é transformar o passado. Os fantasmas do passado são muito reais. Eles são as formações internas em nós que às vezes estão quietas, dormindo, enquanto que outras vezes acordam de repente e agem de forma forte.

No budismo há um termo sânscrito anushaya. “Anu” significa “junto com”. “Shaya” significa “deitado”. Poderíamos traduzir anushaya como “tendência latente”. As formações internas continuam a estar conosco, mas elas estão dormindo nas profundezas de nossa consciência. Chamamo-nas de fantasmas, mas elas estão presentes de uma maneira muito real. De acordo com a escola de budismo Vijñanavada, anushaya são as sementes que dormem na consciência armazenadora de todos. Uma parte importante do trabalho da meditação é ser capaz de reconhecer as anushaya quando elas se manifestam, observá-las em profundidade e transformá-las.